A Profilaxia e os Sonhos

Há tempos não vos falo aqui do subsolo. Mas o maior de nós todos – homens do subsolo – já nos advertiu que é legítimo falar quando não se pode calar.

Gostaria de comunicar à superfície que me ocorreu um sonho. Um objetivo. Um propósito. E antes que eu pudesse dizer-lhes qual era esse sonho, vou explicar como ele morreu e porque hão de morrer todos os sonhos que nascem no subsolo.

Vejam a dimensão do que digo: sonhei. Fantasiei. Idealizei. Projetei uma realidade futura, uma realidade desejável, uma realidade pela qual seria válido viver e empreender. Pedra por pedra, parede por parede. Criei, pelo poder da imaginação, um futuro que eu quis que um dia fosse presente. Contudo, antes que eu desse o primeiro passo, acordei do sonho.

Que quero dizer? Ora, nada pode ser mais simples. No instante em que meu espírito concebeu o sonho, pela força criadora de uma centelha talvez divina, percebi – como eterno vigilante que sou – uma imediata reorganização de tudo o que há em mim. Percebi o despertar de forças e elementos há muito adormecidos em lugares esquecidos – e alguns até mesmo desconhecidos – de minha alma. Constatei, de imediato, a constituição de uma fazenda completamente nova, mista da costura de retalhos e farrapos com outros tecidos, completamente novos, em uma combinação até então inédita. Notei, como que por um passe de mágica, que espaços inéditos e distintos dessa tapeçaria da alma estavam, então, prontos para serem ligados à outros, completamente especiais e únicos, forjados na mais fina seda que eu poderia adquirir nesse futuro promissor. Em uma perspectiva quase intelectual, senti que essa “costura” insuflava vida e energia à trajes gastos e desbotados.

Ah, senhores, essa é uma das maiores ilusões que podem nos vitimar. É a tentação das tentações: a vida vivida em sua plenitude.

Nós, homens do subsolo, somos homens vigilantes. Apenas o mais profundo cansaço consegue, eventualmente, suplantar nosso vício de vigiar e salgar nossas próprias terras. O que em primeiro lugar parece uma doença, logo lhes aparecerá como profilaxia: o subsolo é ambiente para ervas ruins, e é atitude de grande sabedoria vigiar e salgar o próprio solo. Do contrário, as ervas daninhas que constantemente crescem nas rebarbas da alma podem, como uma teia, prender o homem do subsolo como uma mosca em uma teia. O que eventualmente acontece: esses morrem por inanição.

Percebam, para que serve um sonho? Uma resposta positiva: para lhes manter em movimento.

Vejam, isto é apropriado a homens da superfície, onde o ar é respirável e a atmosfera convida a passeios que podem durar vidas inteiras. Aquele, contudo, que habita o subsolo e que se aventura em passeios longos, logo sucumbe diante do ar quase irrespirável, da atmosfera pesada e densa que compõe o ambiente. A movimentação subterrânea deve ser mínima: é preciso procurar as melhores bocas-de-lobo e se instalar próximo a elas.

Falei sobre costurar, com retalhos e seda. Costurar o que? Um belo tapete, para ser consumido pela umidade subterrânea em pouco tempo? Certamente não. Uma cortina, para esconder ainda mais o que já vive oculto no subterrâneo? Obviamente não. O desejo de costurar, tecer – em suma, criar – demorou, mas acabou revelando sua natureza: era o desejo de confecção de uma fantasia.

Para que, perguntariam vocês, serviria uma fantasia ao homem do subsolo? Para passear na superfície, sem dúvida. Mas é ingenuidade – uma ingenuidade que pode ocorrer inclusive na mais densa escuridão e umidade subterrâneas – supor que será possível, para essa criatura clandestina, um passeio prolongado pela superfície, mesmo sob o disfarce de uma fantasia. Em pouco, pouquíssimo tempo, o homem do subsolo pode – e invariavelmente é o que ocorre – ser consumido pela fantasia. A asfixia que o ar da superfície inevitavelmente lhe causa é de tal natureza que seu sangue já não alimentará sua cabeça. Esta, por sua vez, se tornará o túmulo do seu espírito. É como se o disfarce exercesse um misterioso efeito parasitário sobre o homem do subsolo, e se tornasse ele próprio o sujeito de uma vida que será consumida em favor de um personagem que não deveria existir. A fantasia vive para que o homem morra em seu subsolo.

(Aliás, o que vocês acham que são, homens da superfície, senão almas mortas nas profundezas das próprias fantasias?)

Contudo, eu lhes disse, o sonho de tecer uma fantasia foi tão rapidamente inviabilizado que qualquer homem do subsolo teria de curvar-se diante de mim e admitir que fui rápido em realizar o que já chamei de “profilaxia”.

Consideremos, por um instante, a brevidade da vida. Consideremos este aspecto essencial da humana existência que é aquilo a que o vulgo chama “fases”. E fazendo o esforço – profilático – de não deixar a reflexão ser entorpecida pela recordação, consideremos as fazer que ainda estão por vir, e não aquelas que se foram. Pois bem: eu havia falado em seda. Poderia ter falado em quaisquer temas: trigo, barro, pedras, madeira, etc., se meu intento fosse o de semear, habitar, me aquecer, etc. Isso é completamente variável, como variam as cabeças. O caso é que meu sonho envolvia a obtenção de um item muito caro, que só com o passar do tempo eu teria condições de adquirir, mediante o acúmulo de uma pequena fortuna.

Pois bem: digamos que eu adquiri essa pequena fortuna, no espaço de nove ou dez anos. Digamos que, enquanto poupava para comprar a seda, acabei me cercando de toda uma sorte de itens e elementos completamente distintos daqueles que eu inicialmente desejava. Elementos que me fizeram, ano a ano, dia a dia, reavaliar, lenta e paulatinamente, meu projeto. Itens que, no decurso de uma “fase”, me transformaram em outra pessoa. Outra pessoa que, a despeito de ter ou não a fortuna necessária para comprar a sonhada seda, já não é aquela em quem nasceu o desejo primordial e que, portanto, já não quer nada daquilo que perseguiu.

Vocês poderiam me objetar facilmente, reduzindo minhas teses ao auto-diagnóstico de uma alma adoecida. O que, de fato, eu não refutaria. Contudo, entabularia a comparação dessa doença com aquela que faz com que alguém consiga, no decurso dessa fase de nove ou dez anos, permanecer íntegro, intacto, idêntico a si mesmo. Afinal, essa é provavelmente a sua doença. A comparação de minha doença com a sua nos torna a todos doentes. E em um mundo de doentes, ninguém é doente. Assim, aceito: que seja, então, um diagnóstico.

Todavia, qual seria a cura para essa doença? Estamos falando de uma cura para os sonhos, para as expectativas, para os projetos, de uma cura para toda a dimensão do desejo em geral. Isso faz sentido? Nenhum, evidentemente! Assim, admito: permanecerei doente de desejo. Pior ainda: em se tratando de uma doença da alma, o vício por vigilância faz com que a doença exerça sua inteligência própria, transmutando a si mesma e fugindo de mim perpetuamente como um criminoso foge de um investigador. Se ontem desejei fantasia, o desejo por fantasia pode se tornar desejo por uma segunda realidade. Quando eu o detectasse, ele rapidamente assumiria uma terceira forma. O ciclo não se interrompe. O carrossel simplesmente não para, e descer dele significaria a morte.

Se a doença é incurável, o que motiva meu aviso aos senhores? Nada. Os senhores sabem conviver com a doença de vocês. Na superfície ela é branda, como um resfriado. Na umidade do subsolo, ela pode ser fatal. A advertência é muito simples: seu querer é antes de tudo e sobretudo um “querer querer”, que poderia querer qualquer coisa. Aos que padecem comigo, não faço mais que dividir meu método profilático: vigilância e sal na terra. Método que todos os meus convivas conhecem, mais ou menos. No entanto, confesso aos senhores da superfície: se lhes revelo a natureza daquilo que lhes compõe os sonhos, é por simples antipatia. É pelo desejo de intoxicá-los, pelo menos um pouco, com a fumaça que fazemos aqui embaixo e que, no fundo, tanto apreciamos.

Sobre certo tipo de crença: o ateísmo

Um fantasma ronda o ocidente. É o fantasma do ateísmo.

Semeado há incontáveis séculos pelos recorrentes elogios a Razão, o ateísmo finalmente virou moda. Modinha. É cool ser ateu e démodé acreditar em Deus. Se você tem um mínimo de esclarecimento, é melhor se converter logo ao ateísmo, ou logo seu anacronismo acabará “pegando mal” nas rodas de conversa.

Não tenho muita leitura sobre o assunto, pois tive a sorte de crescer em uma atmosfera laica, longe das crenças em amigos imaginários nos ajudando – ou atrapalhando – em nosso viver. Mas na última meia dúzia de anos em que tive a possibilidade de conviver com pessoas esclarecidas – ou que meramente deixaram sua falta de vivências, convicções e crenças ser formatada pelos preconceitos acadêmicos – pude notar, não sem certa surpresa, que é sempre de bom tom uma auto-definição do tipo “ateu” ou “agnóstico”.

É curioso notar que o ateísmo acadêmico evolui ao modo de uma doença. Primeiro vem um posicionamento indiferente às questões relativas à fé – indiferença que eventualmente coincide com a desconstrução promovida pela absorção dos valores iluministas que ainda impregnam o espírito da academia. Em seguida, talvez pela força da lógica do esquecimento, a pessoa começa a fazer uma espécie de “militância atéia”. Esse segundo momento coincide com uma espécie de identificação com os tais referidos valores e aparece, para o sujeito que a vive, como uma “emancipação” na qual, pelas luzes da razão, a pessoa se sente enfim livre das trevas do medievo. Simples inversão da metafísica. Igualmente metafísica. “Deus existe” é substituído por “Deus não existe”.

O primeiro tipo de contra-argumento que poderia me aparecer é algo do tipo: a religião dissemina um mal radical sobre a terra e atrocidades já foram realizadas em nome de Deus. Bem, atrocidades podem – e foram e serão – ser realizadas em nome de qualquer coisa. Inclusive, eventualmente, do ateísmo.

Outros contra-argumentos podem aparecer: a religião torna as pessoas resignadas, ignorantes, preguiçosas, preconceituosas. A religião impede transfusões de sangue que salvariam vidas, a religião proíbe o aborto e o uso da camisinha, a religião cria homens-bomba, a religião promete um mundo imaginário e faz com que a pessoa religiosa não viva plenamente, etc. Concordo que são fatos inegáveis, e contra fatos não há argumentos. Contudo, responsabilizar a religião é uma maneira boba de ler tais fatos, pois não é o apanágio mitológico que coage o sujeito a crença, mas precisamente o sujeito que assume – ou rejeita – a visão de mundo religiosa para, ao fim e ao cabo, fazer o que bem entende.

Mais contra-argumentos poderiam surgir: não é verdade que a religião seja simplesmente um meio, pois qualquer religião tem leis claras que dizem o que deve ser feito. Além disso, não é uma questão de simples deliberação abandonar todo um modo de ver o mundo no qual se nasceu, cresceu e viveu até então. Assim, em certo sentido, a religião condiciona, no mínimo, os limites de ação dos sujeitos e povos. De fato, eu não poderia discordar disso – ainda pensando que sempre, sempre é possível uma ruptura com a crença e que a história nos lega um sem número de exemplos.

O que motiva essas desorganizadas palavras é apenas a cegueira dos ateus.

 

Dir-se-ia que o ateísmo é uma posição “branda”, na qual a crença fica em suspenso. Não é verdade. Porque a crença – na inexistência de Deus – pode ser verificada na militância ateísta, da mesma forma que a crença em Deus pode ser observada no frenesi de dezenas de milhares de crentes que, em galpões, aglomeram-se para ouvir estultices de um homem de camisa e gravata. A diferença entre essas crenças é de grau, e não de natureza. Vejamos se consigo explicar porque.

Quando a religião é atacada, o é sobretudo por seu caráter normativo e pelos malefícios que suas normas trazem aos crentes, quando obedecidas. O crente é aquele que leva a crença para sua vivência. Nesse sentido, o católico não-praticante pode ser duzentas vezes menos aborrecido que o ateu, porque sua suposta indiferença é mais autêntica que o discurso do ateu acadêmico. E o ateu, nesse sentido, é um crente na exata medida em que quer substituir a crença pela descrença, pela crença na ciência, etc. O ateu defende a idéia de que o mundo seria melhor se não existisse sobre a terra a fé cega em instâncias imaginárias. A birra do ateu, contudo, parece sugerir que a crença religiosa é intrinsecamente má, pois não se contenta com o diagnóstico e com o enfrentamento dos produtos e das conseqüências da religião: quer seu extermínio, quer cortar o mal pela raiz.

Um agravante comum dessa psicose é a fé na ciência como perspectiva correta, que deveria substituir, enquanto visão de mundo, toda forma de crença religiosa. Com a tranqüilidade de quem fala de uma perspectiva racional a partir do qual as teses são verificáveis, o ateu ataca o religioso sem jamais estabelecer um diálogo verdadeiro: suas premissas são irremediavelmente distintas. Quando ciência e religião convivem, é por um hercúleo esforço de boa-vontade do intelecto humano.

Assim, o ateu é crente. Partindo de um terreno radicalmente diferente daquele que seu inimigo parte, o ateu não vê seu positivismo como fundamentalismo e não percebe o movimento de seu próprio pensamento: crê na razão, crê na ciência e, no fim, as atrocidades da religião – argumentos irrefutáveis para o extermínio da fé – são incorporadas pelo anseio vaidoso de reconhecimento. Esclarecimento, racionalidade e lucidez são os valores incorporados pelo rançoso ateu que, cego para seu próprio caráter de crente, se torna objeto de uma instância que o transcende e lhe dá segurança. A negação de Deus é parte de suas exigências intelectuais. Quando ela é cumprida, o ateu pode finalmente se sentir a vontade numa atmosfera de paradisíaca racionalidade, como o mais frívolo dos crentes se sentiria nos braços de Deus.

Os bons são maioria? (ou: preâmbulo de uma filosofia do eu-sozinho)

Primeiro, encha seu coração de esperança com esse comercial da Coca-Cola.

Não quero objetar a idéia de que os bons possam ser a maioria. Quero apenas dividir uma impressão. Algo que me saltou aos olhos na primeira vez que vi esse comercial: o fato de que ele divide a humanidade em “bons” e “maus”.

Isso só me chamou a atenção porque faz uns quatro ou cinco anos que tenho em mente a Fábula da Liberdade Inteligível, o aforismo 39 de Humano, Demasiado Humano, de Nietzsche. E nesse texto, Nietzsche faz uma espécie de breve genealogia do valor moral, identificando quatro momentos históricos do juízo moral.

PRIMEIRO MOMENTO – A COMUNIDADE

Penso que esse momento vá desde praticamente a pré-história até o fim da Idade Antiga. Nesse momento, o valor moral é o valor da comunidade, do grupo, da tribo. Certo é o que possibilita a ampliação do poder da tribo. Não é por menos que nesse momento histórico as guerras não eram imorais, mas tragédias onde grupos se enfrentavam ainda muito aquém da ética.

SEGUNDO MOMENTO – A INTENÇÃO

Aqui é, sem dúvida, a Idade Média e a invenção do conceito de intenção. As intenções é que podem ser boas ou más. Invisível, etérea, inacessível nas conseqüências e imensurável para fora da ação, o mundo interior (tão interessante para virgens e padres, diria um Sartre) ganha relevância e o “ama a Deus e faz o que quiseres” substitui a clareza da regra judaica.

TERCEIRO MOMENTO – A AÇÃO

O começo da emancipação da razão produz um Imperativo Categórico, uma pedra de toque que aposenta a relatividade da intenção pela clareza do dever. Considerada por muitos como impossível ou inútil (o que, por si, já revela que ela não é nem um nem outro), a razão prática universalista coloca o mundo sentimental fora do palco da discussão moral.

QUARTO MOMENTO – O SUJEITO

Aqui estamos. “Os bons são maioria”. Há os caráteres bem constituídos e os mal constituídos. Os bem-nascidos e os mal-nascidos. Os educados e os mal-criados. O herói come como herói e mata como herói. O vilão dorme como vilão e salva criancinhas por razões excusas. Sobretudo depois do advento do nazi-fascismo e o início do anseio democrático os contornos da dicotomia “Bem x Mal” foram acentuados. Os ocidentais matam como santos, os islãmicos são terroristas fundamentalistas.

 Mas, os bons são maioria.

É evidente que muito já se falou sobre esse assunto e que concebemos centenas de éticas purificadas de uma dicotomia tão superficial e obtusa. No entanto, uma propaganda dessas, vinda da parte da Coca-Cola, exprime a utilidade e o poder dessa dicotomia.

O quinto momento, o momento para além do juízo moral (mais fomentado do que propriamente profetizado por Nietzsche) ainda está longe, muito longe de ser realizável. Séculos longe. Porque quando a Coca-Cola diz que os bons são maioria, nós não damos a resposta correta, uma resposta capaz de transcender essa dicotomia.

Nós respondemos que os maus são maioria.

Estamos longe, muito longe do verdadeiro momento de autenticidade moral, de criação de valores. Por mais que a singularização dos indivíduos marche vertiginosa e exponencialmente para um momento de latência desse quinto capítulo da história da moralidade, estamos longe. E meu modesto e humilde palpite é o de que estamos longe de uma era da autenticidade porque o diagnóstico de Nietzsche estava errado. Não há um quinto momento. Esse quinto momento já se daria para além da própria História. Ou não será um momento de autenticidade e criação de valores, mas um momento que hoje ainda é inimaginável, pois não seria senão um momento-conseqüência da também vertiginosa e exponencial tomada de consciência da nossa mais fundamental solidão.

“E se eu quiser ser um homem de má-fé?”

Na noite deste 30 de maio, falei algumas horas sobre má-fé e autenticidade para os colegas da graduação da Filosofia-UFSM. Penso que bons momentos e boas discussões foram iniciadas nesta noite. As noções de crença, escolha e identidade pessoal, tal como são pensadas por Sartre, permitiram a articulação e a troca de idéias entre os presentes. A severidade do existencialismo incomodou um pouco, mas mesmo os menos simpáticos à filosofia da finitude não foram totalmente reticentes à noção sartreana de “responsabilidade absoluta”.

Uma das perguntas, contudo, tocou em um dos pontos que considero mais nevrálgicos do pensamento sartreano (ou, pelo menos, da parte dele de que mais me ocupo). O colega Rudinei levantou uma questão que o próprio Sartre coloca em O Existencialismo é um Humanismo: e se eu escolher ser de má-fé? E se eu me escolher como um homem de má-fé? E se eu, livremente, engano a mim mesmo?

A pergunta é especialmente interessante para mim por uma razão que vou expor, também, na forma de questionamento: é possível enganar a si mesmo livremente?

“Sem dúvida que sim”, diria qualquer sartreano. Pela simples razão de que em um sentido amplo, a realidade humana é um espaço de liberdade onde tudo o que é escolhido e realizado é escolhido e realizado livremente. Esse é o espírito do existencialismo, essa é sua atmosfera de severidade: tudo aquilo que é humano é, de forma inescapável, livre. Qualquer posicionamento, qualquer atitude, qualquer projeto é sempre livre e de responsabilidade do sujeito que o elege, que o escolhe.

Contudo, no caso da má-fé a coisa parece um pouco mais complexa.

A má-fé é uma mentira a si. Mas a mentira a si, em um sentido estrito, é impossível: como alguém poderia acreditar numa mentira que deliberadamente inventou para si mesmo? Como alguém poderia acreditar em algo que sabe que não é verdadeiro? Impossível. Mesmo assim, a má-fé é livremente sustentada e escolhida.

Assim se dá na pena de Sartre porque, na verdade, sua noção de escolha se parece muito pouco com qualquer noção tradicional de escolha. Pois se associamos “escolha” a idéia de deliberação ou decisão racional, não entendemos nada de Sartre. A deliberação, refletida e racional, é apenas uma emanação de uma escolha muito mais fundamental que, esta sim, não é nem racional nem irracional: é uma escolha vivida.

A idéia de escolha original, de escolha de si, precisa ser associada a idéia de projeto existencial. Ou seja: a escolha de si, a partir da qual todas as pequenas deliberações podem ser entendidas, não é senão a maneira do sujeito se dispor em relação à suas finalidades últimas. Embora insuficiente, essa caracterização já permite entrever que a noção sartreana de escolha não está associada a idéia de deliberação: ninguém estabelece, em algum momento da vida, qualquer espécie de programação a partir da qual seu comportamento se desenrolará pelo resto da vida. A escolha original só merece essa designação de “escolha”, afinal, porque em sentido geral, ninguém é obrigado – por nada ou por ninguém – a ser quem é ou a ser como é.

A má-fé, como fenômeno simultâneo de mentira, crença e conduta, é crença-mentirosa vivida na conduta. Não é mentira conhecida, mas mentira vivida. Em sentido geral, é o deslocamento da responsabilidade sobre essa conduta para instâncias outras que não a liberdade que impregna e constitui a realidade do sujeito. E isso não é feito de forma deliberada e cínica, mas absolutamente “espontânea”.

A reflexão, quando corretamente conduzida, tem o poder de desenganar o sujeito sobre essa responsabilidade pensada de forma equivocada. Assim, a purificação da reflexão oferece as condições para a assunção da responsabilidade, por parte de um sujeito, por todo o seu pequeno universo de crenças, valores, motivos e até mesmo sentimentos e paixões. O sujeito é o semi-deus do mundo que constitui ao existir e todo seu “mundo interior” deve ser compreendido – para ser corretamente compreendido – como “criação” sua. Criação que, mesmo involuntária, é livre.

Para que a responsabilidade seja corretamente assumida, é preciso essa tomada reflexiva da própria condição de liberdade. É preciso que o sujeito saiba que é livre e viva essa liberdade de forma autêntica. Sartre diz que a liberdade precisa ser sua própria finalidade. Precisa “querer a si mesma”. E a assunção da responsabilidade é o caminho para dissipar as crenças equivocadas. Em última instância, a assunção da liberdade e da responsabilidade é o caminho para compreender a natureza da própria crença enquanto livremente sustentada pela consciência.

“E se eu quiser estar de má-fé?”, alguém pergunta. A resposta mais adequada, penso, é: “Você conseguiria?”.

Penso que a questão é simples: se você sabe que a responsabilidade e a liberdade são a “essência” da realidade humana, é possível estabelecer uma crença equivocada? Depois de compreender a natureza de uma crença pensada a partir da liberdade, é possível crer no erro? A resposta, me parece, é um categórico “não”. A assunção da liberdade e da responsabilidade é uma espécie de conversão. Opera uma verdadeira transformação no sujeito. É, no fundo, a tão fortemente sugerida “conversão à autenticidade” para a qual Sartre tanto nos convida, mas não nos obriga a realizar.

É verdade que essa assunção não é e não pode ser realizada de um só golpe, em abstrato, pela via do conhecimento. Essa conversão se dá em uma complicada dialética de exame se si mesmo (psicanálise existencial) e purificação dos “hábitos” na ação concreta, nas situações vividas, na existência. Cada crença, valor ou sentimento precisa ser examinado e transformado na existência, na situação. Se efetivamente realizada essa conversão, parece absolutamente impossível escorregar novamente para o pântano movediço do engano de si mesmo, para uma existência de pretextos e desculpas.

Para que esse texto não tenha caráter meramente apologético de meu querido existencialismo, é preciso levantar uma questão: a liberdade/responsabilidade não caracteriza uma convicção de tipo dogmático? A liberdade/responsabilidade não é a última armadilha no caminho para a autenticidade? Pensar a realidade humana como pura liberdade/responsabilidade não é a forma mais sofisticada de má-fé? A resposta, me parece, é um sonoro “SIM”. É o último perigo e a última ameaça antes de uma conversão: a tomada da liberdade como valor abstrato reconstrói o “espírito de seriedade” de uma forma perigosamente tentadora para o sujeito que busca a autenticidade.

O apelo existencialista é um convite para a tomada da liberdade concreta, não abstrata. A liberdade deve ser vivida, e não meramente conhecida. Em suma, a liberdade deve ser desejada em cada situação e em cada dimensão da existência. São os hábitos, práticas e condutas que devem ser repensados a partir da perspectiva existencialista, e não apenas o conceito de liberdade. A liberdade deve ser realizada na prática, na existência, na vida. A autenticidade não é o produto de um auto-conhecimento porque, em sentido estrito, o auto-conhecimento é impossível quando o sujeito humano é esvaziado e não há nenhuma “essência”, universal ou particular, a ser conhecida. A “essência” deve ser construída na existência, vivida como movimento.

A psicose de Roquentin, em A Náusea, mostra que sem o lastro de projetos concretos nos quais a liberdade tenha realidade, o sujeito se desvanece como nada e perde o próprio senso de realidade. Roquentin é uma espécie de experiência limite da liberdade: as verdades mais extremas da existência são descobertas pelo personagem que, por se compreender equivocadamente como um nada-em-si, deduz um niilismo prático pelo qual acaba desaparecendo. Apenas metade do processo foi realizado. Roquentin caiu na armadilha de pensar a própria condição dentro do “espírito de seriedade”. Roquentin é quase como que um aviso sartreano sobre essa última armadilha. Diferentemente de Mathieu Delarue, que vai paulatinamente realizando a conversão à autenticidade nos incompletos volumes de Os Caminhos da Liberdade, Roquentin fica truncado numa liberdade compreendida abstratamente. A ilusão do sentido intrínseco do mundo caiu para Roquentin, mas sua inação o condenou a permanecer emperrado no nada.

É verdade que Sartre não explicitou as conseqüências totais de uma conversão à autenticidade nem tampouco nos apresentou um único personagem que o tenha feito. Todavia, se Sartre não nos apresenta um modelo de autenticidade, isso não parece nem um pouco casual: a apresentação de padrões de comportamentos autênticos é auto-contraditória, afinal, o estabelecimento de padrões de valor imanente e intrínseco constituem má-fé porque, em sentido geral, padrões de comportamento que pudessem orientar a ação teriam valor em si mesmos. E isso é tudo o que Sartre não desejava.

Se por um lado é excessivamente severo, o existencialismo sartreano parece coerente. Se o sentido de nosso mundo é erigido dentro do movimento de nossa liberdade vivida e se essa liberdade é responsável pela eleição de seus próprios valores e fins, não faria o menor sentido nos dar uma “receita”, de tipo kantiano, para a autenticidade. Uma das grandes mensagens de Sartre, penso, é nos convidar para um autenticidade de desengano e responsabilidade que deve ser, de ponta à ponta, inventada por cada um de nós.

Garmendismo (ou: o vegetarianismo é um especismo)

Quem transita pelos corredores do curso de filosofia da UFSM sabe que por lá vive um sujeito que é, digamos assim, o grande campeão da ética. No presente momento, o sujeito está na pós-graduação, estudando utilitarismo com ênfase em direitos dos animais. O sujeito é vegano e defende um verdadeiro Frankenstein teórico, construído a partir das mais diversas fontes da ciência e da filosofia contemporânea. O sujeito é, de longe, meu melhor interlocutor – e assessor particular – para assuntos de ética aplicada. E aquilo que acabei de chamar de Frankenstein teórico fundamenta uma das perspectivas teóricas mais coerentes e exigentes que tive o (des)prazer de conhecer nos meus poucos anos de estudo em filosofia. Por falta de um nome melhor, chamarei essa perspectiva de “garmendismo”.

Em meu entendimento, o garmendismo defende uma posição radical no tocante a moralidade das ações. Segundo o garmendismo, provocar o sofrimento de um ser senciente é imoral, e atos imorais não devem ser cometidos, pois são injustificáveis. Uma das conseqüências dessa posição é a atitude vegana, ou seja, um estilo de vida totalmente depurado dos hábitos fundados sobre a exploração dos animais. Assim, segundo o garmendismo, nossa sociedade está completamente atolada no erro moral, pois os animais são explorados das mais variadas formas para que possamos ter o estilo de vida que temos. Dede nossa alimentação (carne, ovos, leite) passando por nosso vestuário (couro, peles), os produtos químicos que usamos depois de serem testados em animais (remédios, xampus) até os animais que exploramos por sua força (carroças, arados), em suma, tudo isso e mais uma série de coisas que ignoro é completamente imoral, pois é fundado sobre uma profunda, intensa e continuada exploração de nossos irmãos não-humanos, que tratamos como coisas enquanto na verdade são, enquanto sujeitos de interesses, pessoas.

Por sua própria natureza, o garmendismo desemboca no transumanismo. O projeto garmendista de eliminação de todo sofrimento se harmoniza perfeitamente com os sonhos transumanistas de manipulação genética e superdrogas. Uma vez que seja possível, através do avanço da tecnologia, tomar as rédeas da evolução natural e transformá-la em uma evolução racional, é aparentemente lógico que algumas opções serão feitas e algumas das realidades mais básicas da existência humana poderão ter desaparecido para sempre. Refiro-me à morte e a dor. Assim, o garmendismo é também um imortalismo e o sonho do garmendista é o de ver uma natureza completamente reprogramada, sem predadores, sem adversidades, sem sofrimento, sem morte.

Contudo, como um “finitista” (o oposto do imortalista, uma espécie de suicida bastante demorado), sou obrigado a extrair conseqüências bastante evidentes do garmendismo. Sim, esse não é um texto meramente elogioso.

Começo por observar que o garmendismo, como qualquer posição radical, habita uma região muito próxima do “irrealizável”. Não por que seja impossível. Nem porque seja tão difícil. Talvez, apenas, porque é muito chato e porque as pessoas são muito preguiçosas. Vou explicar.

Fui, sem dificuldades, vegetariano por dois anos. Andava feliz e sorridente pelo mundo que Deus criou – e Darwin explicou como funcionava –, até que um dia entrei em contato com as idéias garmendistas. Certo de que poupava do sofrimento as minhas primas vacas e galinhas ao renunciar ao sabor dos bifes, churrascos e galetos, com o garmendismo descobri que os ovos, o leite, o queijo que eu consumia, bem como o couro dos sapatos que eu usava contribuíam tanto – ou às vezes mais! – para o sofrimento dos animais explorados em sua produção quanto a carne que eu abolira. Com o garmendismo eu descobri que o vegetarianismo é uma ilusão, e que apenas o veganismo pode representar uma autêntica perspectiva ética àqueles que realmente se preocupam com a questão do sofrimento animal. Depois de entrar em contato com o garmendismo, eu não poderia mais enganar à mim mesmo: ovos, leite e couro são exploração dos animais, e servir-se destes produtos seria compactuar com o Mal aos meus irmãos não-humanos. A partir desse momento o veganismo seria o Bem,  a preguiça seria o Mal.

Neste momento, tornei-me Lúcifer e aceitei que meu pecado (a preguiça) fazia de mim um arauto do Mal sobre o mundo.

 [Pausa para um cigarro, um café e para a descontração dos leitores]

Vejam bem: eu não discordo do garmendismo. O garmendismo é uma perspectiva moral. A senciência é um bom ponto de partida para uma ética. Se alguém que aceita que a senciência é realmente um bom fundamento para a moralidade e, ainda assim, continua disseminando o sofrimento indiscriminadamente (bebendo leite, por exemplo), essa pessoa está aceitando um papel na luta do Bem contra o Mal. Está assumindo um lado na batalha. Contudo, não é esse o tipo de argumentação que vejo direcionada contra o garmendismo.

Várias objeções já foram feitas ao garmendismo. A maioria delas, porém, não procede. A maioria das objeções ao garmendismo são de pessoas que estacionam sua reflexão ética em algum meio termo bem-estarista, no qual acabam defendendo espantalhos teóricos dos mais diversos: ou o estilo de vida vegana é considerado insustentável no mundo contemporâneo, ou informações médicas/científicas absolutamente duvidosas defendem uma necessidade de consumo de produtos animais por parte dos humanos, ou os níveis de senciência das diferentes espécies justifica níveis de sofrimento que podem ser infringidos, etc. Preguiça, pura preguiça, nada mais que preguiça. Ou se ataca a senciência como fundamento da ética, ou aprende-se a viver com a cumplicidade pela disseminação do Mal. Diante do garmendismo, não há meio termo: ou você o derruba por inteiro, ou você é do Mal. É simples.

No fim das contas, há um certo tipo de preguiça moral que acaba sendo um dos piores tipos de inimigo do garmendismo: a preguiça moral que fundamenta o vegetarianismo bem-estarista. Diferentemente da brutalidade gratuita do açougueiro que não está nem aí para a senciência, a racionalização vegetariana acaba sendo a expressão de uma incapacidade da convivência com o Mal causado pelas próprias ações. Vegetarianos consumidores de ovos e leite realmente querem acreditar que fazem a diferença em algum nível, fechando os olhos, consciente ou inconscientemente, para a indiferença moral de sua conduta no tocante à exploração animal. Diante do garmendismo, todo tipo de justificação moral servirá para o alívio da consciência vegetariana. Utilizando a terminologia sartreana com a qual estou habituado, afirmo: diante de uma moral da senciência, o vegetarianismo é uma forma de má-fé, de engano de si.

Não aderi ao garmendismo, é verdade. Pequei por preguiça e entrei no time do Mal. O vegetarianismo não faz mais sentido e para o veganismo sou preguiçoso demais. Estaria sendo injusto com o garmendismo se dissesse que, no fundo, a grande mensagem dessa perspectiva moral é a de libertar de uma conduta vegetariana aparentemente inútil. Porém, levanto uma questão para uma próxima postagem: que estranho fenômeno é esse que, sob diferentes formas, adormece a consciência moral para a participação no Mal? Pois depois do garmendismo, repito, a conclusão é inescapável: só há o veganismo ou o Mal.

Imagem sugerida por Gabriel Garmendia.

O sorrisinho do Fantinel

Neste dia 27 de abril acontecerão as eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFSM. Disputam o pleito três grupos: Em Frente (representante da situação), Inova e Amanhã Vai Ser Outro Dia.

Meu apoio – praticamente irrestrito e incondicional – vai para a Chapa 1, Em Frente, na medida em que é o grupo que pode dar continuidade a toda uma série de avanços obtidos durante as duas últimas gestões (Viração e Avante!). Por estar um pouco afastado do Movimento Estudantil, confesso que só tive a oportunidade de assistir um dos diversos debates realizados esse ano. E, para não me estender sobre quaisquer pautas rigorosamente políticas, vou falar de algo que me chamou a atenção durante o debate realizado hoje, ao meio-dia, em frente ao RU: o sorrisinho do Fantinel.

Roberto Fantinel foi um dos porta-vozes das idéias da Chapa 2 – Inova. Na verdade, em minha modesta opinião, ele foi o porta-voz de uma ausência completa de idéias por parte da Chapa 2. Mas – e é aqui que quero chegar – ele não parecia irritado com isso. Muito pelo contrário. A cada intervenção atrapalhada, seguida de vaias, ele sorria ao final da fala. Discursava minutos inteiros sobre assunto nenhum e, ao final, coroava o discurso vazio com um sorrisinho, sem mágoa. Atitude que destoou um pouco da de alguns de seus companheiros que, em alguns momentos, temi que fossem partir do debate à agressão, de tão nervosos que ficavam.

A minha teoria para entender aquele sorrisinho não é nada sofisticada: no fundo, Fantinel sabia que estava realizando um discurso vazio. Sabia que suas falas não representavam quaisquer idéias. No fundo, Fantinel sabe que seus votos não dependem de campanha política ou mesmo de idéias políticas. Fantinel é o capitão de um time formado por pessoas que voltam à cena da política estudantil em tempo de eleição, mas que desconhecem o verdadeiro significado de representar toda a classe discente de uma universidade. Um pessoal que remaneja matrículas há dez anos com o intuito de instrumentalizar o DCE para fins políticos escusos. Um pessoal que não tem a dignidade de revisar os textos dos materiais de campanha, repetidos desde várias eleições passadas. Um pessoal que tem o curral eleitoral garantido pela cultura política conservadora de parte dos acadêmicos, a ponto de panfletear sobre a “indecência” dos freqüentadores da Boate do DCE.

O sorrisinho do Fantinel não me causa espanto. Faz sentido. Está em seu lugar certo. O que me espanta é ver alguém perdendo a cabeça em nome de idéia-nenhuma, como foi o caso de alguns de seus colegas de chapa. O que pode fazer ferver o sangue de alguém que veste a camiseta de um projeto nulo, vazio, que periodicamente se elege sob os ombros da falta de consciência política? Eu não sei. E arrisco dizer: nem o sorridente Fantinel saberia.

Mesmo assim, se o sorrisinho do Fantinel for, como eu penso que é, uma consciência da nulidade do próprio discurso, isso não o torna menos culpado do pecado que, em minha opinião, ele comete: Fantinel brinca com coisa séria. O projeto político que ele representa – o imobilismo do movimento estudantil, o uso do que é estritamente público para fins outros que não a autêntica representação política, etc. – é uma ameaça real de retrocesso nas lutas políticas nas quais o Movimento Estudantil de Santa Maria tem tomado parte nos últimos anos. Se Fantinel brinca com coisa séria, acho que concordamos que ele não está qualificado para a função de representante político. Exceto, talvez, para aqueles que elegem seus representantes de modo cego, sem prestar a mínima atenção para a eventual nulidade de idéias de um discurso. Ou, para aqueles que se deixam levar por sorrisinhos.

Quarta-feira, dia 27 de abril, eu voto pelo avanço nas lutas políticas dos estudantes. Eu voto na CHAPA 1, para seguir EM FRENTE!

Como “parecer” se transforma em “ser”

“O ator não pode parar, mesmo no meio da mais profunda dor, de pensar na impressão causada por sua pessoa e no efeito da cena, por exemplo, mesmo no momento do sepultamento de seu próprio filho; a sua dor e suas lágrimas serão as manifestações de sua própria maneira de ser e ele será seu próprio espectador. O hipócrita que sempre tem de desempenhar o mesmo papel, acaba por deixar de ser hipócrita; assim os padres que, enquanto jovens, são de modo geral, conscientemente ou não, hipócritas, se tornam finalmente naturais e é precisamente então que são realmente padres sem nenhuma afetação; ou se o pai não consegue atingir seu objetivo, então talvez o filho, que se serve do legado paterno, haverá de herdar seu hábito. Se alguém quiser, durante muito tempo e persistentemente, parecer alguma coisa, torna-se difícil depois para ele ser outra coisa. A vocação de quase todo homem, até do artista, começa pela hipocrisia, por uma imitação do exterior, por uma cópia daquilo que produz um efeito. Aquele que traz sempre a máscara das expressões fisionômicas amigáveis deve acabar por adquirir poder sobre as disposições benévolas, sem as quais não é possível obter a expressão da cordialidade – e quando finalmente elas, por sua vez, adquirem poder sobre ele, ele é benévolo.” – Nietzsche, Humano, Demasiado Humano.

 “Gide disse, e muito bem, que um sentimento representado e um sentimento vivido são duas coisas quase indiscerníveis: decidir que amo minha mãe ficando junto dela, ou representar uma comédia que me levará a ficar, por causa de minha mãe, é mais ou menos a mesma coisa. Por outras palavras: o sentimento constrói-se através dos atos praticados; não posso, portanto, pedir-lhe que me guie.” – Sartre, O Existencialismo é um Humanismo.

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Há dias essas velhas idéias estão martelando em minha cabeça. Por alguma razão, lembrei desses dois trechos que, me parece, estão dizendo quase a mesma coisa: as pessoas se perdem em seus personagens. Talvez, como gostaria Sartre, porque não haja senão personagens sem nenhum ator (isto é, aparência sem nenhuma essência).

Contudo, o que está martelando em minha cabeça é que o que tem cara de doença parece ser também a terapia. O que estou querendo dizer? Quero dizer que talvez – e é uma idéia bem complexa e que daria uma tese – o fato de que o fingimento e a representação (em suma, a mentira) têm o poder de constituir (ou possuir, como diz Nietzsche) uma individualidade inteira, isso também quer dizer que por essa via é possível transformar uma individualidade, uma personalidade, uma pessoa. Ou não?

Sartre nos sugere que sejamos autênticos. Embora a autenticidade não seja, até onde pude perceber, um conceito satisfatoriamente trabalhado por este filósofo, sobre uma coisa Sartre parece irredutível: é pela ação e apenas pela ação que a autenticidade, como qualquer outro humano modo de ser, pode ser realizado.

Ora, estas duas passagens não fazem senão identificar ação e representação. É conhecido o jargão sartreano de que o mundo humano é um grande teatro. Ambas as passagens parecem sugerir que nossos vícios – como a hipocrisia – possuem uma constituição efêmera, porque efêmera é a constituição de nossas personalidades, afinal. Parece-me que se a lei vale para os vícios, vale também para as virtudes. E tanto Nietzsche quanto Sartre são dois dos mais ferrenhos moralistas da filosofia contemporânea, então devem estar pensando nas possibilidades oferecidas por essa “plasticidade essencial” da personalidade humana.

A idéia martelou em minha cabeça, em um primeiro momento, por uma razão incômoda: a insatisfação com o comportamento de outrem rapidamente faz emergirem essas idéias à mente, junto ao impulso de reprovar esse comportamento, dizendo algo como: “você não precisa ser assim, seja diferente, não vê que toda sua personalidade é uma farsa?”. Contudo, nesse momento, o existencialista esbarra em pelo menos duas barreiras.

A primeira é que os sentimentos não servem como motivação para uma transformação da personalidade. Eles fazem parte da totalidade sintética que é a pessoa. E se aspectos da pessoa – sentimentos, valores, crenças, etc. – são a motivação de uma transformação, bem, então não há transformação. A pessoa será a mesma, rearranjada de forma um pouco distinta, mas ainda a mesma. E é por isso que a idéia sartreana de escolha se parece tão pouco com uma idéia de escolha: a escolha põe seus próprios motivos, não se motiva por nada, se produz livre e espontaneamente, ex nihilo. Uma transformação, então, teria de se dar de todo em um só golpe, realizando a implosão de uma pessoalidade, implosão simultânea à geração espontânea de outra.

Se isso não bastasse, podemos acompanhar o texto de Nietzsche e perceber outro obstáculo bastante desagradável, e bem mais simples: mudar é difícil. Se o personagem e seus valores não são perfeitamente realizados por nós, talvez apenas nossos filhos os realizem. Ou não.

É, como eu disse, um assunto complexo e daria uma bela tese, que provavelmente não vou escrever. Precisava apenas dividir essas reflexões com meus poucos e bons leitores, antes que ela se transformasse em um câncer. Em outra oportunidade, porém, quero retomar o assunto e apresentar exemplos – literários (sim, isso quer dizer que vou falar de Milan Kundera) e cinematográficos que talvez ilustrem um pouco essas idéias.