Há tempos não vos falo aqui do subsolo. Mas o maior de nós todos – homens do subsolo – já nos advertiu que é legítimo falar quando não se pode calar.
Gostaria de comunicar à superfície que me ocorreu um sonho. Um objetivo. Um propósito. E antes que eu pudesse dizer-lhes qual era esse sonho, vou explicar como ele morreu e porque hão de morrer todos os sonhos que nascem no subsolo.
Vejam a dimensão do que digo: sonhei. Fantasiei. Idealizei. Projetei uma realidade futura, uma realidade desejável, uma realidade pela qual seria válido viver e empreender. Pedra por pedra, parede por parede. Criei, pelo poder da imaginação, um futuro que eu quis que um dia fosse presente. Contudo, antes que eu desse o primeiro passo, acordei do sonho.
Que quero dizer? Ora, nada pode ser mais simples. No instante em que meu espírito concebeu o sonho, pela força criadora de uma centelha talvez divina, percebi – como eterno vigilante que sou – uma imediata reorganização de tudo o que há em mim. Percebi o despertar de forças e elementos há muito adormecidos em lugares esquecidos – e alguns até mesmo desconhecidos – de minha alma. Constatei, de imediato, a constituição de uma fazenda completamente nova, mista da costura de retalhos e farrapos com outros tecidos, completamente novos, em uma combinação até então inédita. Notei, como que por um passe de mágica, que espaços inéditos e distintos dessa tapeçaria da alma estavam, então, prontos para serem ligados à outros, completamente especiais e únicos, forjados na mais fina seda que eu poderia adquirir nesse futuro promissor. Em uma perspectiva quase intelectual, senti que essa “costura” insuflava vida e energia à trajes gastos e desbotados.
Ah, senhores, essa é uma das maiores ilusões que podem nos vitimar. É a tentação das tentações: a vida vivida em sua plenitude.
Nós, homens do subsolo, somos homens vigilantes. Apenas o mais profundo cansaço consegue, eventualmente, suplantar nosso vício de vigiar e salgar nossas próprias terras. O que em primeiro lugar parece uma doença, logo lhes aparecerá como profilaxia: o subsolo é ambiente para ervas ruins, e é atitude de grande sabedoria vigiar e salgar o próprio solo. Do contrário, as ervas daninhas que constantemente crescem nas rebarbas da alma podem, como uma teia, prender o homem do subsolo como uma mosca em uma teia. O que eventualmente acontece: esses morrem por inanição.
Percebam, para que serve um sonho? Uma resposta positiva: para lhes manter em movimento.
Vejam, isto é apropriado a homens da superfície, onde o ar é respirável e a atmosfera convida a passeios que podem durar vidas inteiras. Aquele, contudo, que habita o subsolo e que se aventura em passeios longos, logo sucumbe diante do ar quase irrespirável, da atmosfera pesada e densa que compõe o ambiente. A movimentação subterrânea deve ser mínima: é preciso procurar as melhores bocas-de-lobo e se instalar próximo a elas.
Falei sobre costurar, com retalhos e seda. Costurar o que? Um belo tapete, para ser consumido pela umidade subterrânea em pouco tempo? Certamente não. Uma cortina, para esconder ainda mais o que já vive oculto no subterrâneo? Obviamente não. O desejo de costurar, tecer – em suma, criar – demorou, mas acabou revelando sua natureza: era o desejo de confecção de uma fantasia.
Para que, perguntariam vocês, serviria uma fantasia ao homem do subsolo? Para passear na superfície, sem dúvida. Mas é ingenuidade – uma ingenuidade que pode ocorrer inclusive na mais densa escuridão e umidade subterrâneas – supor que será possível, para essa criatura clandestina, um passeio prolongado pela superfície, mesmo sob o disfarce de uma fantasia. Em pouco, pouquíssimo tempo, o homem do subsolo pode – e invariavelmente é o que ocorre – ser consumido pela fantasia. A asfixia que o ar da superfície inevitavelmente lhe causa é de tal natureza que seu sangue já não alimentará sua cabeça. Esta, por sua vez, se tornará o túmulo do seu espírito. É como se o disfarce exercesse um misterioso efeito parasitário sobre o homem do subsolo, e se tornasse ele próprio o sujeito de uma vida que será consumida em favor de um personagem que não deveria existir. A fantasia vive para que o homem morra em seu subsolo.
(Aliás, o que vocês acham que são, homens da superfície, senão almas mortas nas profundezas das próprias fantasias?)
Contudo, eu lhes disse, o sonho de tecer uma fantasia foi tão rapidamente inviabilizado que qualquer homem do subsolo teria de curvar-se diante de mim e admitir que fui rápido em realizar o que já chamei de “profilaxia”.
Consideremos, por um instante, a brevidade da vida. Consideremos este aspecto essencial da humana existência que é aquilo a que o vulgo chama “fases”. E fazendo o esforço – profilático – de não deixar a reflexão ser entorpecida pela recordação, consideremos as fazer que ainda estão por vir, e não aquelas que se foram. Pois bem: eu havia falado em seda. Poderia ter falado em quaisquer temas: trigo, barro, pedras, madeira, etc., se meu intento fosse o de semear, habitar, me aquecer, etc. Isso é completamente variável, como variam as cabeças. O caso é que meu sonho envolvia a obtenção de um item muito caro, que só com o passar do tempo eu teria condições de adquirir, mediante o acúmulo de uma pequena fortuna.
Pois bem: digamos que eu adquiri essa pequena fortuna, no espaço de nove ou dez anos. Digamos que, enquanto poupava para comprar a seda, acabei me cercando de toda uma sorte de itens e elementos completamente distintos daqueles que eu inicialmente desejava. Elementos que me fizeram, ano a ano, dia a dia, reavaliar, lenta e paulatinamente, meu projeto. Itens que, no decurso de uma “fase”, me transformaram em outra pessoa. Outra pessoa que, a despeito de ter ou não a fortuna necessária para comprar a sonhada seda, já não é aquela em quem nasceu o desejo primordial e que, portanto, já não quer nada daquilo que perseguiu.
Vocês poderiam me objetar facilmente, reduzindo minhas teses ao auto-diagnóstico de uma alma adoecida. O que, de fato, eu não refutaria. Contudo, entabularia a comparação dessa doença com aquela que faz com que alguém consiga, no decurso dessa fase de nove ou dez anos, permanecer íntegro, intacto, idêntico a si mesmo. Afinal, essa é provavelmente a sua doença. A comparação de minha doença com a sua nos torna a todos doentes. E em um mundo de doentes, ninguém é doente. Assim, aceito: que seja, então, um diagnóstico.
Todavia, qual seria a cura para essa doença? Estamos falando de uma cura para os sonhos, para as expectativas, para os projetos, de uma cura para toda a dimensão do desejo em geral. Isso faz sentido? Nenhum, evidentemente! Assim, admito: permanecerei doente de desejo. Pior ainda: em se tratando de uma doença da alma, o vício por vigilância faz com que a doença exerça sua inteligência própria, transmutando a si mesma e fugindo de mim perpetuamente como um criminoso foge de um investigador. Se ontem desejei fantasia, o desejo por fantasia pode se tornar desejo por uma segunda realidade. Quando eu o detectasse, ele rapidamente assumiria uma terceira forma. O ciclo não se interrompe. O carrossel simplesmente não para, e descer dele significaria a morte.
Se a doença é incurável, o que motiva meu aviso aos senhores? Nada. Os senhores sabem conviver com a doença de vocês. Na superfície ela é branda, como um resfriado. Na umidade do subsolo, ela pode ser fatal. A advertência é muito simples: seu querer é antes de tudo e sobretudo um “querer querer”, que poderia querer qualquer coisa. Aos que padecem comigo, não faço mais que dividir meu método profilático: vigilância e sal na terra. Método que todos os meus convivas conhecem, mais ou menos. No entanto, confesso aos senhores da superfície: se lhes revelo a natureza daquilo que lhes compõe os sonhos, é por simples antipatia. É pelo desejo de intoxicá-los, pelo menos um pouco, com a fumaça que fazemos aqui embaixo e que, no fundo, tanto apreciamos.









